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Histórico

 

 

* Por Rodrigo Rosa (historiador)

A Casa dos Açores, construída no século XIX, abriga o Museu Etnográfico, no município de Biguaçu. Distante cerca de 20 quilômetros do centro de Florianópolis, é um dos mais esplêndidos registros do apogeu da colônia açoriana-madeirense da localidade de São Miguel. A Casa dos Açores é administrada pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC). O imóvel  foi adquirido pelo Governo do Estado de Santa Catarina em 1978, e passou por restauração para se transformar em museu, inaugurado no dia 4 de março de 1979.

O museu forma, junto com a Igreja de São Miguel Arcanjo, a chácara e os arcos do antigo aqueduto, um belo conjunto arquitetônico. Conta com acervo de móveis, roupas e outras peças que visam à preservação e ao estudo da cultura açoriana. O espaço serve também para divulgar obras de autores catarinenses e exposições, além de contar com a comercialização de artesanato local.

Um pouco da história do local

Para compreender a importância histórica da Casa dos Açores – Museu Etnográfico é preciso relembrar fatos importantes que ocorreram na região de São Miguel. Em meados do século XVIII – por volta de 1747 -, o rei D. João V de Portugal aproveitou a escassez de habitantes nas terras portuguesas do sul do Brasil para resolver dois problemas do reino: a ocupação efetiva dessas terras e a diminuição dos problemas populacionais e alimentares nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, com a instituição de fluxos migratórios de habitantes das ilhas dos arquipélagos para, inicialmente, a Ilha de Santa Catarina e arredores. Isso fez com que centenas de famílias se candidatassem para a experiência de colonizar uma região sobre a qual pouco conheciam.

No ano de 1748 é inaugurado o fluxo migratório de Açores e Madeira, culminando com a fundação de diversas povoas ao longo do litoral da província de Santa Catarina; dentre as povoações fundadas à época, estava a de São Miguel da Terra Firme, às margens da Baía Norte, fronteira com a Ilha de Santa Catarina, que em 1750 recebeu o primeiro grupo de 140 famílias de imigrantes; em 23 de janeiro 1751 a póvoa tem sua capela inaugurada e em 8 de fevereiro do ano seguinte é elevada à condição de freguesia (BOITEUX, 1953, p 156).

A paróquia de São Miguel atendia uma imensa gleba de terra, cobrindo uma área que hoje abrange diversos municípios.

Eram fregueses dessa paróquia os moradores da enseada das Garoupas, da ponta e praia das Bombas, dos Zimbos, da enseada das Tejucas, da praia das Palmas e da armação grande das baleias, estabelecida na ponta da terra firme, que ficava quase leste-oeste com a ponta setentrional da ilha de Santa Catarina (OLIVEIRA, 2007, p 58).

Prova da importância da freguesia de São Miguel da Terra Firme pode-se medir, em parte, a partir de seu patrimônio físico, como a Igreja Matriz, dedicada ao Arcanjo São Miguel. Uma construção que se comparada a outras igrejas do mesmo período, destaca-se pela imponência.

Construção de grande porte e, em termos de volumetria, incomum para os padrões catarinenses, com sacristia lateral, frontão reto, de acordo com a tipologia colonial desenvolvida no sul do País. (SOUZA, 1992, p 02).

Os governadores da província no período entre 1750 e 1756, Manoel Escudeiro Ferreira de Souza e seu sucessor José de Melo Manuel, tentaram em diversas ocasiões transferir a capital da província do Desterro para São Miguel, não obtendo êxito. Pesava a favor de São Miguel sua posição estratégica – defendida de perto pelas fortalezas – e seu clima.

No ano de 1777 os espanhóis invadiram a Ilha de Santa Catarina, São Miguel tornou-se então refúgio de parte da população ilhôa, autoridades e militares que fugiram da Ilha para o continente, tornando-se capital provisória da Capitania de Santa Catarina.

 

São Miguel da Terra Firme foi capital, no entanto por pouco tempo: de 10 de outubro de 1777 a 02 de agosto de 1778. Logo no dia 03 de agosto Veiga Cabral tomou posse definitiva da Ilha de Santa Catarina, e por extensão, de toda a Capitania. (ZIMMERMANN, 2011, p 34).

 

Assinado o Tratado de Santo Idelfonso, em 1778, a ilha foi devolvida aos portugueses e São Miguel voltou a sua vida normal.

De arquitetura luso-brasileira, a Casa dos Açores é testemunha de uma época de opulência. Construída na primeira metade do século XIX pelo fazendeiro e senhor de escravos João Ramalho da Silva Pereira, quando a freguesia de São Miguel contava com população menor apenas que as freguesias de N. S. do Desterro, N. S. da Graça do Rio de São Francisco e Santo Antônio do Anjos da Laguna (DA SILVA, 2007, p.187).

O imóvel foi adquirido por Manoel Joaquim Madeira, que o reformou em 1865. Em 1978, após ter passado por vários proprietários, foi adquirido pelo Governo do Estado de Santa Catarina que o restaurou e o transformou em museu com objetivo de preservar e estudar a cultura açoriana.

 

Referências:

BOITEUX, Lucas Alexandre. Açorianos e madeirenses em Santa Catarina. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, v. 219, 1953. p.122 – p.169

FERREIRA, Sérgio Luiz . A “açorinzação” do litoral catarinense nos setecentos.

FURLAN, Oswaldo A. 250 anos de influência Açoriana no Português do Brasil.

OLIVEIRA, João Rafael Moraes de. Natureza apropriada: a exploração dos recursos naturais na capitania de Santa Catarina 1738/1808. Dissertação de mestrado apresentada ao programa de Pós-Graduação em História e Sociedade da UNESP, campus de Assis, 2007.

PIAZZA, Walter F. Açorianos e Madeirenses no Sul do Brasil.

SILVA, Augusto da. A ilha de Santa Catarina e sua terra firme. Estudo sobre o governo de uma capitania subalterna (1738-1807). Universidade de São Paulo. Tese. São Paulo, 2007.

SOUZA, Alcidio Mafra de. Guia dos bens tombados, Santa Catarina. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1992.

ZIMMERMANN, Fernanda. De armação baleeira a engenhos de farinha: fortuna e escravidão em São Miguel da Terra Firme - SC: 1800-1860. 142 p. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-graduação em História, Florianópolis, 2011